A representação do negro na televisão brasileira.

Leia os textos motivadores.

TEXTO 1

A estreia da novela Segundo sol, no horário nobre da Globo, reacendeu uma polêmica antiga na tevê brasileira: a representatividade negra nas telinhas, ou melhor, a falta dela. Parte do público acusou a emissora de não representar a população negra na trama que se passa na Bahia (estado com maior percentual de população negra do país) e até o Ministério Público aconselhou a empresa carioca a trabalhar com mais cuidado a questão da representação social.

Em nota enviada ao Correio, a Globo alegou que a segunda fase de Segundo sol tem mais personagens negros. Mas a emissora admite que a representatividade de negros na grade de programação é “menor do que gostaríamos”, e afirmou ainda que a representatividade é importante em seu trabalho e que ganhará ainda mais destaque.

“As manifestações críticas que vimos até agora estão baseadas, sobretudo, na divulgação da primeira fase da novela (Segundo sol), que se concentra na trama que vai desencadear as demais. Estamos atentos, ouvindo e acompanhando esses comentários, seguros de que ainda temos muita história pela frente. De fato, ainda temos uma representatividade menor do que gostaríamos e vamos trabalhar para evoluir com essa questão”.

Superintendente da TV Brasil, Caique Novis diz que mostrar a diversidade cultural, social e étnica do país é uma preocupação diária. “Para formar nossa grade de programação sempre levamos em conta essa premissa. Se o nosso país tem mudado, tem se questionado sobre isso, é missão da programação da TV Brasil refletir e lutar pela mudança desse cenário de ainda muita invisibilidade do negro em todos os campos”, completa.

Adaptado de: https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/diversao-e-arte/2018/06/04/interna_diversao_arte,685838/negros-em-novelas.shtml

TEXTO 2

Em entrevista exclusiva ao Observatório do Direito à Comunicação, o publicitário e diretor executivo do Instituto Mídia Étnica diz que é preciso descolonizar os meios de comunicação para resgatar conceitos e valores presentes na cultura negra. De acordo com ele, a estrutura dos meios e seu conteúdo são extremamente nocivos à formação dos jovens e crianças afrodescendentes, pois exercem forte influência na forma de viver e ver o mundo. “A tendência é negar sua própria identidade”, afirma. Para o ativista, as reflexões sobre racismo devem necessariamente pautar a concepção de TV pública no país: “É tolerável que uma TV comercial não represente o negro, mas é inaceitável que uma TV pública, que se propõe a dar voz aos diversos segmentos da sociedade, faça a mesma coisa”.

Observatório do Direito à Comunicação – O Brasil é famoso por sua diversidade, inclusive racial. Essa diversidade tem vez na televisão?

Paulo Rogério Nenes – Esta diversidade não é representada na televisão porque ainda se valoriza na TV, como em várias esferas da sociedade brasileira, a matriz européia de pensamento e comportamento. Negros e indígenas não são representados de maneira digna na TV: ou são representados de maneira estereotipada ou não aparecem. Na verdade, o Brasil tem como uma de suas principais características a sua diversidade cultural e as diversas contribuições dos povos, mas a TV não representa estes grupos. Isso parte da ideologia que fez com que políticas públicas do Estado brasileiro e toda concepção dentro da escola, das universidades e nos meios de comunicação valorizassem e privilegiassem esta matriz européia. É a matriz do colonizador. E o Brasil é quem perde com esta história toda porque não se conhece. Ao valorizar apenas uma vertente étnica e racial nos meios de comunicação e nas outras esferas da vida, perde a chance de entender as outras contribuições trazidas pelos africanos e daqueles que já estavam aqui, como os indígenas. Isso é grave porque causa uma falsa imagem do país. O professor Hélio Santos (economista da USP) sempre diz que a TV da Dinamarca e da Europa em geral têm mais negros que a do Brasil. Nosso país não pratica a diversidade, e as instituições, como a escola, a igreja ou os meios de comunicação, cometem este racismo institucionalizado por privilegiar um determinado tipo étnico e um padrão de beleza, de comportamento, de vida.

ODC – O racismo que ainda existe no Brasil tem sua face televisiva?

Claro. Pra fazer uma reflexão, vamos lembrar quem era Mussum? Um homem negro ébrio, estereótipo do negro maltrapilho, vagabundo, sem perspectiva. Em vários momentos da teledramaturgia e em outras produções da TV brasileira, há uma carga muito grande de estereótipos e preconceitos. Há uma ação deliberada para, além de sub-representar, colocar os negros e negras em patamar de desigualdade, de inferioridade. E isso é prejudicial para quem assiste. Para o jovem negro ou para a criança que está formando sua identidade isso é extremamente nocivo, pois exerce forte influência na forma de viver e ver o mundo. Por isso, se não atacarmos o racismo nesta esfera da produção, ele vai continuar sendo reproduzido em larga escala. É desproporcional termos tantas organizações e pessoas que falam em desigualdade racial pelo país e a TV reafirmar valores racistas.

ODC – Onde ele (o racismo) se manifesta de forma mais evidente?

Não é possível qualificar onde acontece mais fortemente. Há uma questão institucionalizada de sub-representação da personagem negra. Pesquisas recentes mostram que as televisões têm apenas 5,5% de apresentadores e profissionais que aparecem no vídeo que são negros. Há também a ausência da discussão sobre a cultura negra.

Adaptado de: http://www.intervozes.org.br/direitoacomunicacao/?p=18487

Com base na leitura dos textos motivadores e nos conhecimentos construídos ao longo de sua formação, redija um texto dissertativo-argumentativo, em modalidade escrita formal da língua portuguesa, sobre o tema a representação do negro na televisão brasileira.