Depoimento surfista Mayra Gabeira.

UFPR 2019

O texto a seguir é um trecho do depoimento da surfista brasileira Mayra Gabeira à revista Veja (ed. 2603, de 10/10/2018), no qual ela conta episódios marcantes da sua trajetória profissional. Um trecho dessa narrativa foi suprimido, resultando em duas partes. 

Dê continuidade à narrativa a partir do ponto em que foi interrompida, garantindo a coerência entre o trecho inicial e o trecho posterior à interrupção. 

Sou surfista de ondas gigantes e passei muitos anos perseguindo a maior de todas. Cismei que ia ter esse título, mais difícil ainda por eu ser uma mulher disputando em um mundo de homens, e fui atrás dele com persistência. Quase morri em 2013 no mar de Nazaré, em Portugal, hoje o local onde se formam as ondas mais altas do mundo, e mesmo assim não desisti. Neste ano, aconteceu: surfei uma onda de mais de 20 metros, a maior da minha vida. Eu consegui, mas a conta não foi nada barata. Tive meu primeiro contato com o oceano revolto de Nazaré há exatamente cinco anos. Era um mar ainda pouco explorado, mas cheguei e pensei: se eu quiser ser reconhecida como surfista de onda grande, é aqui que tenho de praticar. Fui a primeira mulher a enfrentar as ondas de lá. Depois de vinte dias treinando, o mapa meteorológico apontou uma ondulação enorme para o dia 28 de outubro daquele 2013 […] 

[…] Acho que foi ali que quebrei o tornozelo. Começaram naquele instante as cenas do afogamento que ficaram famosas e até hoje podem ser vistas em vídeo na internet. Fiquei nove minutos tomando ondas na cabeça e acabei apagando. Finalmente o Carlos Burle [surfista da mesma equipe] conseguiu me resgatar de jet ski e me levou para a areia. Fizeram-se os procedimentos de ressuscitação, e eu recuperei a consciência. Lembro-me de abrir os olhos e ver a praia extensa, o dia nublado, só areia e céu. Entendi que estava viva e fiquei surpresa, porque eu já tinha me despedido. Morri e voltei.