Fanatismo e as relações interpessoais na atualidade.

(PUCSP) Inverno 2019

As redes sociais e os aplicativos de comunicação interpessoal têm facilitado muito a interação dos usuários. No entanto, não raras vezes, têm servido para manifestações que, pautadas pelo fanatismo, geram constrangimentos e/ou rompimentos de relações. Com base nesse quadro, produza um texto dissertativo-argumentativo que apresente seu ponto de vista sobre o fanatismo e as relações interpessoais na atualidade.

TEXTO I

Amizades dilaceradas

“Em nosso tempo, aprendemos a submeter a amizade àquilo que chamamos de convicções. E até mesmo com o orgulho de uma retidão moral. É preciso realmente uma grande maturidade para compreender que a opinião que nós defendemos não passa de nossa hipótese preferida, necessariamente imperfeita, provavelmente transitória, que apenas os muito obtusos podem transformar numa certeza ou numa verdade. Ao contrário da fidelidade pueril a uma convicção, a fidelidade a um amigo é uma virtude, talvez a única, a última. Hoje, eu sei: na hora do balanço final, a ferida mais dolorosa é a das amizades feridas; e nada é mais tolo do que sacrificar uma amizade pela política.” O trecho acima é parte do ensaio “A Inimizade e a Amizade”, no qual o escritor Milan Kundera fala de relações fraturadas por divergências políticas. Foi escrito em 2009, mas nos ajuda a fazer uma reflexão necessária no momento atual. Vale mesmo se engalfinhar nas redes sociais com amigos, conhecidos, colegas de trabalho, por causa de política? Nas eleições, em 2014, escrevi neste espaço pela primeira vez sobre o ringue de MMA no qual as redes sociais tinham se transformado. Só piorou. De lá pra cá as pessoas passaram a se sentir muito à vontade para escrever as maiores barbaridades sem se sentirem constrangidas porque encontraram eco em suas idiotices. Ficou claro que muitos de nossos amigos não primam pela inteligência, pela solidariedade, desprezam minorias, são coniventes com corrupção, compartilham fake news e se sentem muito espertos. Também caí na cilada de me achar muito mais sabida do que gente que pensa diferente. Fui mordida pela mosquinha da razão, perdi a paciência, fui arrogante e intransigente. Tenho uma lista (não muito grande) de amizades desfeitas ou de relacionamentos estremecidos por causa de política. E, hoje, com o cenário ainda mais conturbado, lamento profundamente que as coisas tenham tomado esse caminho. Sinto saudade de alguns mais próximos e de conhecidos que eram para mim sempre uma alegria rever num post ou num boteco. Amizades nascem pela empatia, crescem com afinidades, ainda que não sejam determinadas apenas por isso, mas por muitos critérios subjetivos, se fortalecem com tempo, carinho e dedicação. Não deveriam terminar por divergências políticas, porque elas sempre existirão.

Mesmo com amigos muitos próximos, com parentes queridos, e até com meu marido, tenho grandes diferenças sobre muitas questões. Nada que agrida minhas crenças fundamentais, mas ainda assim temas que rendem conversas acaloradas, em que os ânimos se agitam, as vozes se alteram. Em português arcaico, a gente fica puto com a opinião do outro e dá uns gritos mesmo para se fazer ouvir, mas, no final, todo mundo se abraça e pede uma saideira, porque a gente gosta mais um do outro do que de político. Qualquer um. Mas não é todo mundo que pensa dessa maneira. Há quem idolatre candidatos com o mesmo fanatismo com o qual reverencia divindades. E pior do que a cegueira religiosa só mesmo a política. Ao analisar as amizades desfeitas, percebi que a maioria delas aconteceu justamente com pessoas que resolveram brincar de cabos eleitorais. E com esses a conversa parece estar perdida. É avatar no perfil das redes sociais, treta em nome de candidato, ódio, ameaça de vingança. Minhas batalhas são sempre inglórias porque, em geral, estou na posição de criticar e não de canonizar, mas de que adianta se político virou, para muitos, herói ou santo? Acho difícil acreditar que em 2018, com toda a classe exposta com a bunda na janela, tenha gente que se preste ao papel de lambe-botas (com respeito ao leitor não escrevo o que gostaria) de candidato. E eu, apesar de ser boa pessoa, limpinha, não ter o nome no SPC, não parar em fila dupla, não usar carteirinha de estudante falsificada e ter sempre ficado ao lado dos meus amigos na alegria e na ressaca, fui trocada por alguns por promessas de campanha. Um diz que vai fazer o Brasil ser feliz de novo, outro assegura união para o Brasil mudar, tem aquele que fala que vai ter mais Brasil. A concorrência é grande. Uma das poucas coisas que posso oferecer é minha mais singela fidelidade, virtude que Kundera enaltece. Também faço uma moqueca baiana de lamber os beiços. Duvido que algum desses candidatos seja páreo para isso. Por outro lado, está cheio de gente que foca no ódio ao coentro e que não liga muito para esse negócio de amizade.

Mariliz Pereira Jorge. Jornalista e roteirista de TV. Folha de S.Paulo, 18 set. 2018. Adaptado.

Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ marilizpereirajorge/2018/09/amizades-dilaceradas.shtml. Acesso em: 23 set. 2018.

TEXTO II

Fanatismo, fanatismos

Fanático por caipirinha. Fanático por samba. Fanático por viagens. Há fanáticos para tudo. Ou melhor, há fanáticos e fanáticos. O problema é que, por ser empregada tão à vontade (aliás, como tantas outras), a palavra fanatismo banalizou-se, perdendo em força e conteúdo. Entretanto, parece óbvio que um “fanático por novela” é algo bem diferente (e bem menos perigoso) que um “nazista fanático”. Fanático é um termo cunhado no século XVIII para denominar pessoas que seriam partidárias extremistas, exaltadas e acríticas de uma causa religiosa ou política. O grande perigo do fanático consiste exatamente na certeza absoluta e incontestável que ele tem a respeito de suas verdades. Detentor de uma verdade supostamente revelada especialmente para ele pelo seu deus, (portanto não uma verdade qualquer, mas A Verdade), o fanático não tem como aceitar discussões ou questionamentos racionais com relação àquilo que apresenta como sendo seu conhecimento: a origem divina de suas certezas não permite que argumentos apresentados por simples mortais se contraponham a elas: afinal, como colocar, lado a lado, dogmas divinos e argumentos humanos? Pode-se argumentar que as palavras de Hitler ou as de Mao mobilizaram fanáticos tão convictos como os religiosos e não tinham origem divina. Ora, de certa forma, eles eram cultuados como deuses e suas palavras não podiam ser objeto de contestação, do mesmo modo que ocorre com qualquer conhecimento de origem dogmática. É condição do fanático a irracionalidade. […] Num tempo de homens-bomba, atentados terroristas, manifestações racistas, ações extremistas, pensar o fanatismo é atual, relevante e urgente. […] Os fanáticos, como nos explica o escritor Amós Oz, são “aqueles que acreditam que o fim, qualquer fim, justifica os meios”, que acham que a justiça – ou o que quer que queiram dizer com a palavra justiça –, seus valores, suas convicções e crenças são mais importantes do que a vida. São aqueles que, se julgam algo mau, consideram legítimo procurar eliminá-lo, junto com seus vizinhos.* […] O assunto é preocupante. Qualquer pessoa de bom senso sabe que o fanatismo já provocou muito estrago. É mais que hora de ser identificado, compreendido e combatido. Para tanto, é preciso saber reconhecê-lo em suas diversas manifestações. Saber até onde foi para se ter uma ideia de até onde poderá ir, se não for detido. Ou ter o seu conceito definitivamente transformado, num mundo menos louco. Que tal fanático por livros? Ou fanático por chocolate? E, que Mozart nos perdoe, fanático por Beethoven?

Contra o fanatismo – Amós Oz (Rio de Janeiro, Ediouro, 2004). Jaime Pinsky e Carla Bassanezi Pinsky 

In: PINSKY, J.; PINSKY, C.B. (Org.). Faces do fanatismo. São Paulo: Contexto, 2004, p. 10-13. Adaptado.