Negacionismo

O negacionista “sincero” pode nos levar à extinção

Não basta admitir a obviedade da emergência climática, é preciso viver segundo a emergência climática.

“Manifestantes protestam contra o uso de combustíveis fósseis durante
a Cúpula do Clima em Glasgow, nesta quarta.”
YVES HERMAN (REUTERS)

Negacionismo, uma palavra que até bem poucos anos atrás era alienígena para a maioria da população, se tornou íntima. Circula nas bocas como chiclete, nem trava mais a língua de ninguém. Negacionismo é justamente negar uma realidade verificável e comprovada porque ela é inconveniente ou desconfortável. No século 20, o grande exemplo foi a negação do Holocausto Judeu. Hoje, o terraplanismo, o movimento antivacina e principalmente a negação da emergência climática são os principais exemplos do negacionismo. O problema é que o negacionista é sempre o outro. E este é um grande problema, em especial no que se refere ao colapso climático, porque está nos impedindo de reagir com a velocidade necessária ao maior desafio da trajetória de nossa espécie na única casa que temos.

O negacionismo promovido pelo fenômeno dos ditadores eleitos da virada da segunda década para a terceira é um negacionismo estratégico, planejado. Eles representam as grandes corporações que provocaram e seguem provocando o superaquecimento global, entre elas as de combustíveis fósseis, que têm poucos anos para seguir lucrando. Representam também o interesse do agronegócio predatório, que também tem poucos anos para conseguir derrubar as barreiras que ainda impedem a transferência das terras públicas protegidas (concentradas hoje nos territórios indígenas e unidades de conservação) para o estoque de terras comercializáveis, acessíveis a mãos privadas e à exploração predatória.

O cerco ao desmatamento e à destruição de enclaves da natureza como a Amazônia está aumentando. O Brasil e outros países destruidores vão enfrentar cada vez mais resistência aos seus produtos originados no desmatamento no mercado internacional. 

O que precisamos perceber com a urgência que a gravidade do momento exige é o negacionismo que mora em nós. Chamar o outro de negacionista e achar que somos pessoas esclarecidas porque reconhecemos a obviedade da crise climática (assim como a obviedade da eficácia das vacinas, a obviedade de que a Terra é redonda, a obviedade de que os nazistas exterminaram 6 milhões de judeus, além de ciganos, homossexuais e pessoas com deficiência) não é suficiente. Esta é a parte fácil. Qualquer um que não esteja empenhado em criar uma realidade paralela para chamar de sua, sabe de tudo isso. A questão é viver conforme aquilo que se sabe. A questão, no caso da emergência climática, é viver conforme a urgência do momento, a questão é lutar segundo a urgência do momento. Esta é a parte difícil. E nesta a maioria está falhando.

Se a maioria tem certeza de que não é negacionista, os fatos apontam que a maioria se comporta como negacionista. É o que podemos chamar de “negacionismo sincero”. O negacionista sincero é aquele que não sabe que é. Não é negacionista por truque ou por cálculo, em nome de seus próprios interesses imediatos, mas sim por desconhecer que se comporta como negacionista. Alguns poderiam ser mais duros, chamando-os de negacionistas preguiçosos ou negacionistas alienados, mas me parece que a maioria das pessoas está paralisada pelo medo e usando a negação como uma forma de proteção. Não justifica, já que é a pior forma de proteção, aquela que desprotege e agrava o problema. Não justifica, mas ao menos explica. Serei menos dura que os adolescentes que gritam: “Eu quero seu pânico porque a casa está em chamas”.

A maioria da população, e isso em todos os setores, mesmo entre os cientistas, mesmo entre os jornalistas, está vivendo como se não estivéssemos numa emergência climática, como se não estivéssemos testemunhando a sexta extinção em massa de espécies. Se sua casa está em chamas você acordaria, se moveria e dormiria fazendo algo além de todo o seu possível para apagar o fogo? Você não descobriria também um jeito de fazer o impossível? Se a casa está em chamas, todos os cientistas não estariam atravessados por essa questão, independentemente da sua área de atuação? Se a casa está em chamas, toda a imprensa não estaria cobrindo a Amazônia e outros enclaves de natureza com tanto ou mais afinco do que cobre Brasília? O negacionismo está incrustrado em todas as áreas, mesmo onde menos se espera.

Tanto a emergência climática quanto a sexta extinção em massa de espécies foram provocadas por ação humana. Mas não de todas as pessoas humanas, é preciso sublinhar. E sim da minoria dominante que nos trouxe até o abismo do colapso do clima e hoje ergue muros para evitar a entrada de refugiados climáticos, aqueles que com cada vez maior frequência migram pelo planeta porque tiveram suas regiões devastadas pelo superaquecimento global, e com a devastação veio a fome, as doenças e a violência.

Além de muros, essa minoria também está empenhada em construir bunkers de luxo na Nova Zelândia, para se proteger dos efeitos do colapso climático, assim como arrisca alguns passeios pelo espaço para ver se consegue encontrar outro planeta para destruir. Projetos para povoar Marte já estão em curso, como foi noticiado aqui neste EL PAÍS, porque uma parcela minoritária das pessoas humanas acha que basta dispor de tecnologia para dispor de outros planetas, assim como dispôs das terras dos povos originários na época das chamadas “grandes navegações”. O planeta gira, apesar do que dizem os terraplanistas, mas a mentalidade colonizadora segue a mesma, produzindo e reproduzindo crimes onde puder.

Recente pesquisa da organização não governamental Oxfam mostrou que o 1% mais rico do mundo, uma população menor que a da Alemanha, comporta-se como se tivesse direito a destruir o planeta. Este 1% mais rico, caso siga agindo como hoje, deverá exceder em 30 vezes o limite necessário de emissões de carbono para evitar o aumento da temperatura global em 1,5 graus Celsius até 2030, liberando 70 toneladas de CO₂ por pessoa por ano. Ao mesmo tempo, os 50% mais pobres do mundo vão manter suas emissões bem abaixo do limite, liberando em média 1 tonelada de carbono por ano. Portanto, uma diferença de 70 para 1. Mesmo que o tema do carbono ainda seja pouco claro para quem está lendo, é fácil perceber que 70 para 1 é uma diferença abissal, garantida pela desigualdade que estrutura o sistema capitalista. Essa diferença sela o destino da maioria das pessoas humanas no planeta, justamente a maioria que menos colaborou para o colapso climático.

Já a minoria que levou o planeta ao colapso climático e à sexta extinção em massa de espécies, esta segue se comportando como se fosse dona do mundo, de todos os mundos, mesmo dos mundos das pessoas não humanas —e está ameaçando a própria espécie de extinção. Porque, como a experiência nos mostra, não se consideram da mesma espécie. Sempre consideraram que há aqueles que podem morrer, há aqueles que podem ter sua vida esgotada na mais-valia do capitalismo, há aqueles que podem continuar nas ruas contaminadas por covid-19 para manter uma parcela minoritária abastecida de mercadorias, como a pandemia mostrou.

Assim, é preciso deixar muito claro o óbvio: não é dessa minoria que virá nenhuma solução nem virá o enfrentamento da emergência climática. Essa minoria tem certeza de que vai salvar a própria pele, nem que seja em mansões debaixo da terra ou em outro planeta. Se ilude, porque não vai escapar. Pode apenas escapar por mais tempo. A destruição chegará para todos se não nos movermos. Essa minoria, porém, só perceberá isso tarde demais, porque não tem a experiência de se sentir ameaçada e é incapaz de decodificar os sinais. No momento, é nós por nós, como as periferias descobriram desde sempre. Estamos em risco de extinção. Se não extinção completa do que chamamos espécie humana, o risco cada vez mais provável de viver num planeta muito mais hostil à nossa espécie. Num planeta pior já estamos vivendo, imagino que fora os suspeitos de sempre ninguém vai duvidar dessa obviedade.

Essa é a dinâmica da guerra que estamos vivendo, uma guerra entre uma minoria dominante e uma maioria espoliada. E, como sabemos, estamos perdendo essa guerra. Essa guerra nem é guerra, pela desproporção das forças entre os dois lados. É massacre. E, no chão da floresta, esse massacre é sangrento.

ELIANE BRUM
10 NOV 2021

Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora de oito livros, entre eles Brasil, construtor de Ruínas: um olhar sobre o país, de Lula a Bolsonaro (Arquipélago) e Banzeiro òkòtó, uma Viagem à Amazônia Centro do Mundo (Companhia das Letras). Site: elianebrum.com |  Email: elianebrum.coluna@gmail.com | Twitter

Fonte: https://brasil.elpais.com/opiniao/2021-11-10/o-negacionismo-sincero-pode-nos-levar-a-extincao.html?event_log=fa

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