Notas sobre “Memória de Elefante”, de António Lobo Antunes

Antônio Lobo Antunes, renomado escritor e psiquiatra português, autor de “Memória de Elefante,  relaciona intrinsecamente o ato da leitura à emancipação individual, dizendo que “um povo que lê nunca será um povo escravo”.

1) O livro funciona como uma boa introdução à literatura de Lobo Antunes. Estreia do autor, seu estilo ainda está se formando, mas já há mostras do que está por vir. Se já está aqui o Lobo Antunes do cruzamento de vozes, da alternância entre a terceira e a primeira pessoa, do ódio e desprezo pela sociedade portuguesa, ainda é um autor imaturo, em formação. A mescla de narradores, o discurso indireto livre mergulhando violento na consciência da personagem central, se fazem presentes, mas ainda há um predomínio da voz em terceira pessoa, elemento que vai desaparecer cada vez mais a partir do romance “Os cus de Judas”, formando uma obra carregada pela multiplicidade. “Memória de elefante” é, portanto, narrativa mais “fácil” dentro da obra do português.

2) O livro é concentrado no protagonista e seus pensamentos e perturbações. A maior parte das personagens serve apenas para acompanhar a tormenta do médico psiquiatra que ocupa o centro da narrativa. A grandeza de seu fluxo de pensamentos, memórias e ações ocupa grande parte do livro, sobrando pouco para desenvolver as demais personagens.

3) A solidão é o tema que grita por todo o livro. Recém saído de um divórcio, o médico sofre de saudade da esposa e dos filhos. Sem família, sozinho em um apartamento, a personagem vive o abandono, após lutar na África — o livro assim como “Explicação do Inferno” e “Os cus de Judas”, tem forte tom autobiográfico — volta à pátria como uma figura inadequada, mergulhada no desconforto e desilusão.

4) Não bastasse a solidão, soma-se o desgosto com os empregos e a vida social. A personagem odeia o sanatório onde trabalha. Descreve com repulsa sua chefia, os parentes dos pacientes e boa parte dos colegas de trabalho. Odeia as relações de convivência obrigatória a que tem que submeter e a hipocrisia da sociedade para com os internos. Para completar, a personagem sente profundo nojo do Salazarismo e seus resquícios, ainda muito presentes na Portugal do final dos anos 1970. A personagem lutou na África, foi para a guerra, viu de perto o horror e sente asco das exaltações aos tempos da Ditadura feitas por homens de classe média que cruzam seu caminho. Sente no ar o peso dos anos ditatoriais e se indigna com a consciência dos velhos, saudosos dos tempos de tirania. O mal-estar da personagem é tão profundo que chega até mesmo a vomitar em duas partes do livro, impulsionado pelo enjoo da comida em um momento, pelo álcool em outro. Lobo Antunes nunca foi um escritor sutil.

5) Como outras personagens de Antonio Lobo Antunes, este psiquiatra é uma máquina de rancor e ódio. Odeia tudo. Odeia também as mulheres. A narrativa pulula de comentários misóginos, especialmente no penúltimo ato, nos momentos finais do livro. Sua relação com as mulheres e as prostitutas é uma relação de repulsa, desprezo e necessidade. A dor da perda da mulher ainda o consome e sua resposta a essa dor é cruel.

6) Os capítulos poderiam funcionar como pequenos episódios separados. Não exatamente contos, mas talvez relatos, pequenas crônicas raivosas. O cotidiano no sanatório, um almoço com um amigo de longa data, uma noitada em um cassino. Acompanhamos um dia na vida da personagem e vemos como ela carrega seu próprio inferno nas costas.

7) O livro é uma preparação para as grandes obras do autor e antecipa alguns temas que serão desenvolvidos com ainda mais intensidade no futuro. Uma boa porta de entrada, mas ainda injusto com o potencial e sofisticação narrativa que o português irá desenvolver nas suas obras a partir dos anos 1980 em diante.

Wibsson
17 Agosto, 2016

Disponível em: https://medium.com/@Wibsson/notas-sobre-ant%C3%B3nio-lobo-antunes-mem%C3%B3ria-de-elefante-31f6f3eba4aa. Acesso em: 04 de agosto de 2020.