O que a cultura do cancelamento diz sobre o mundo em que estamos vivendo?

O banimento ou o boicote de uma pessoa da arena pública não é novidade – mas, agora, nas redes sociais, o hábito ganha força em nome da justiça social.

MARCEL HARTMANN

Se estivessem em uma festa, pessoas tão diferentes como Anitta, J.K. Rowling, Gabriela Pugliesi e Woody Allen poderiam sentar-se à mesa e conversar sobre uma experiência em comum: serem cancelados. O termo, nascido na era das redes sociais, descreve um indivíduo, marca ou empresa boicotado depois de agir de forma censurável – em geral, costumam ser erros que envolvem racismo, LGBTfobia ou machismo. No tribunal da internet, os juízes são de pouca misericórdia: o acusado tem o passado investigado, a reputação atacada e a defesa dispensada. A sentença? Humilhação e perda de dinheiro – em casos mais graves, desemprego e ostracismo. Parece algo distante, que só diz respeito a famosos, mas cuidado: o cancelado de amanhã pode ser você.

O cancelamento é um tipo de ataque à reputação que busca retirar o alvo dos holofotes do debate público e puni-lo. Todos os dias, em processo semelhante, cancela-se alguém flagrado em absurdo. O vacilo é compartilhado milhares de vezes – em geral, no Twitter –, mensagens de ódio são enviadas, e o cancelado, já humilhado, sofre consequências financeiras, com perda de contratos e patrocínios. Em casos raros, a desculpa ameniza os prejuízos, mas pode ser lida como mentira. 

O cancelamento exige tomar o erro como se fosse o todo – não há equívocos pontuais. Na visão de canceladores, Anitta pulou de uma artista que não se posiciona politicamente a uma cantora que se aproveita do dinheiro de fãs gays. Não é à toa que o verbo “cancelar”, normalmente aplicado para romper um contrato de serviços, agora é aplicado a pessoas, como se indivíduos fossem, também, objetos a serem consumidos – ou rejeitados.

Era uma possibilidade de ampliar a voz e a fala de grupos historicamente à margem e forçar ações, do ponto de vista político, para marcas ou figuras públicas mudarem. Mas, hoje, qualquer pessoa nas redes tem a identidade reduzida ao erro. A cultura do cancelamento, em si, não provoca pensamento crítico — opina a socióloga Suelen Aires Gonçalves, pesquisadora do Grupo de Pesquisa de Violência e Cidadania da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e integrante do coletivo negro Atinuké.

Como vírus, o cancelamento infecta pessoas relacionadas ao cancelado. Em outra situação de apuros, Anitta foi duramente criticada por dividir o palco com Nego do Borel, previamente cancelado por uma declaração preconceituosa contra a transexual Luísa Marilac.

É uma cultura extraordinariamente perigosa e fortemente autoritária, vinda geralmente de pessoas que não teriam outro protagonismo a não ser a denúncia do outro. As vítimas criam outras vítimas. Quem ganha com isso? O sujeito não tem voz nem defesa, é linchado. MARIO CORSO

Nem mesmo morrer livra do cancelamento: o ex-primeiro-ministro da Inglaterra Winston Churchill, visto como essencial para a vitória dos Aliados contra a Alemanha nazista, foi cancelado por declarações racistas e colonizadoras. Monteiro Lobato também, devido a suas obras consideradas discriminatórias à população negra.

— Sempre tem uma vítima e um herói do discurso. É uma cultura extraordinariamente perigosa e fortemente autoritária, vinda geralmente de pessoas que não teriam outro protagonismo a não ser a denúncia do outro. As vítimas criam outras vítimas. Quem ganha com isso? O sujeito não tem voz nem defesa, é linchado — diz o psicanalista e escritor Mario Corso.

Adaptado de: https://gauchazh.clicrbs.com.br/comportamento/noticia/2020/09/o-que-a-cultura-do-cancelamento-diz-sobre-o-mundo-em-que-estamos-vivendo-ckf76bwn6006q014vxtkkl7qk.html

Após a leitura do texto de Marcel Hartmann, produza um texto dissertativo apresentando o seu ponto de vista acerca do posicionamento do autor. Para isso, é fundamental que sua opinião seja exposta de modo articulado, em um conjunto de ideias claras e consistentes. Ao desenvolvê-la, você pode se valer das reflexões do autor, de exemplos pessoais, situações presenciadas, fatos, acontecimentos, enfim, de tudo o que possa ajudá-lo a sustentar, de maneira qualificada, o texto.

A versão final do seu texto deve:

1 – conter um título na linha destinada a esse fim;

2 – ter a extensão mínima de 30 linhas, excluído o título – aquém disso, seu texto não será avaliado -, e máxima de 50 linhas. Segmentos emendados, ou rasurados, ou repetidos, ou linhas em branco terão esses espaços descontados do cômputo total de linhas.