É difícil estabelecer com precisão as origens do “você sabe com quem está falando?” no país, mas casos recentes mostram que a atitude de invocar a posição social para impedir uma interpelação ou um questionamento é um traço vivíssimo na sociedade brasileira.
Da mulher que se ofendeu durante uma fiscalização de rua no Rio, quando o marido engenheiro civil foi tratado de “cidadão”, até a humilhação de um guarda municipal em Santos por um desembargador autuado pela falta de máscara, a “carteirada” está sendo confrontada de alguma forma. O registro dos episódios em vídeo expõe uma incômoda instituição nacional.
Para o antropólogo Roberto DaMatta, o principal acadêmico a esmiuçar o espírito do “você sabe com quem está falando?”, o hábito está relacionado a uma questão de papéis sociais e seus limites. Afinal, na prática, as regras valem igualmente para todos?
“Tem tudo a ver com uma sociedade que jamais discutiu privilégio e limite de privilégio. Privilégio é exatamente a liberdade de poder fazer tudo”, disse o autor de “Jeitinho brasileiro” e “Carnavais, malandros e heróis”.
Outra referência na análise do desenvolvimento e da formação brasileira, a historiadora Lilia Schwarcz diz que o “você sabe com quem está falando” germinou num ambiente em que historicamente poucos mandavam e muitos obedeciam.
O sistema colonial e o esquema de capitanias hereditárias, o regime escravocrata que perdurou por mais tempo aqui do que em outros países, o coronelismo e o nepotismo político que confunde as esferas do público e do privado deram condições para a carteirada reinar.
“Se nós juntarmos todos esses elementos, chegamos ao verdadeiro ritual social do ‘você sabe com quem está falando?’ no Brasil. Um ritual autoritário, de subordinação, porque aquele que emite a pergunta está naturalizando a sua autoridade e, ao mesmo tempo, também a inferioridade daquele que recebe essa resposta.”
DaMatta lembra também da instalação da família real portuguesa no Brasil. “Com sua corte, em 1808, aqui se consolidou um sistema feito de duques, marqueses e barões: de inferiores e superiores estruturais. Então o sistema do saber com quem se fala equivale a saber quem é o ‘cara’, o dono, o rico, o líder. Quem se acha ‘alguém’ coloca o outro no lugar de ‘ninguém'”, diz.
“As coisas se complicam quando se fala e se quer democracia — quando se adota a igualdade como um fator ideal da vida social. A partir da República [1889], muda-se o regime político, mas a sociedade não se livra dos costumes ou das matrizes ideológicas que moldavam o seu cotidiano ou a sua cultura”, afirma o antropólogo.
PROPOSTA
Para desenvolver este tema, disserte com argumentos baseados em fatos e dados da realidade pertinentes ao tema, sobre as consequências da utilização desta pergunta como estratégia de manipulação de situações adversas, deixando claro o seu ponto de vista sobre os possíveis danos à convivência em sociedade.
Adaptado da proposta do vestibular da PUCRS de 2020.
